
Envelhecer, ceder à passagem do tempo, reorganizar prioridades e buscar considerações a respeito da própria existência. Assim compreendo o processo do envelhecer: nada glamoroso, trágico ou romântico, apenas a ligeira lembrança de que, do alvorecer ao entardecer, estamos encarregados de levar a nossa vida.
Um projeto tecido de intenções, realizações, decepções e da percepção dos limites com os quais, cedo ou tarde, nos deparamos. Fios que se encontram, se entrelaçam e vão compondo uma trama nem sempre compreendida enquanto é tecida. Talvez envelhecer nos permita olhar para esse tecido com alguma distância e reconhecer nele aquilo que fomos, aquilo que somos e, quem sabe, aquilo que ainda podemos ser.
Nesse percurso, vida e finitude inevitavelmente se encontram. Em “O Profeta”, Gibran (1923), ao refletir sobre a morte, aproxima vida e morte pela imagem do rio que encontra o mar. Talvez envelhecer nos aproxime dessa consciência: a de que a vida tem seu curso e de que somos, ao mesmo tempo, percurso e passagem.
No fundo, no fundo, envelhecer é também chegar ao pódio da vida. Não como quem vence uma corrida, mas simplesmente como quem chegou até ali. Um lugar que, para muitos, permanece inalcançável, porque no meio do caminho lá se fica.
Chegar, entretanto, não significa receber o envelhecimento sem inquietações. Para alguns, ele traz preocupações com a aparência, com as transformações do corpo, com o lugar que se passa a ocupar socialmente e com tantas outras questões que, diante da passagem do tempo, a alma humana traz à tona.
Para outros, talvez o envelhecer se apresente de outra maneira: como a possibilidade de olhar para o caminho percorrido e, ainda assim, perguntar-se:
E agora, daqui para onde?
Porque chegar ao pódio não significa necessariamente que a travessia terminou.
Talvez seja apenas outro lugar de onde se possa olhar a vida.
Mistério do existir.
*Iolanda Brandão é conselheira e coordenadora da Comissão Especial de Psicologia e Envelhecimento do CRP 01/DF.
#imagemacessível: card colorido contendo uma fotografia de um casal de idosos sorrindo em local aberto. Aparece chamada para leitura do artigo de Iolanda Brandão, uma foto de rosto da autora e a marca gráfica do CRP 01/DF.