
Por Anne Emanuelle Cipriano (CRP 01∕26050)*
Este texto é para a sociedade. Por isso, deixo de lado a formalidade acadêmica e escrevo em tom de crônica. No dia 27 de agosto, celebra-se no Brasil a regulamentação da Psicologia como profissão. Tenho pensado sobre o intenso processo de mudança pelo qual ela vem passando nos últimos anos, acompanhando as transformações do mundo (nem sempre positivas), com demandas para as quais os manuais são desenvolvidos quase que simultaneamente.
Este texto é para você que tem… uma Psi para chamar de sua. É um convite para que respeite e valorize o seu horário de atendimento, zele pela boa relação e respeite o setting psicoterápico (termo técnico que usamos para o espaço que se torna seu, compreendendo desde o enquadre até o espaço físico ou virtual onde a sessão ocorre). Me dirijo a você que, assim como eu, já teve um acompanhamento psicológico bem-sucedido, que ajudou a organizar as ideias. Mas também falo com você que pretende fazer psicoterapia em algum momento: se puder, faça. É bom.
E não poderia deixar de mencionar as pessoas que tiveram experiências ruins com profissionais da área. Compreendo a sua frustração e sugiro: tente mais uma vez. Trabalhadores são pessoas, e pessoas erram. Mas também aprendem e acertam. É por isso, inclusive, que existem os Conselhos de Classe, que regulam, fiscalizam e orientam o exercício profissional. Considerando a prática clínica, cara(o) leitora(or), profissionais também sofrem, têm problemas, fragilidades, dúvidas, dívidas e precisam de descanso, salário digno, lazer e feedback. Nem sempre temos frases de efeito como os psicólogos das séries, mas favorecemos a reflexão.
Este texto também é para profissionais de outras áreas que compreendem a riqueza da parceria entre saberes: que encaminham, recomendam e se abrem para discutir casos. Essa troca transforma e fortalece a todos. E, claro, é um texto para você que pensa em cursar Psicologia, seja para mudar de carreira, por gostar do contato humano ou por um sonho antigo. Venha! Sempre há espaço. Venha de peito aberto e com disposição: para estudar continuamente (sem a ilusão de que precisa de infinitas especializações) e para assumir um compromisso ético e social desde a formação. A nossa imagem profissional se consolida na prática e na ciência, em teorias e técnicas reconhecidas por nossos pares, e não pelo número de seguidores ou por fórmulas de life coach para demandas complexas.
E a você, cara(o) colega, quero dizer: sei que ainda há muito a ser feito. Precisamos de mais concursos, mais postos de trabalho e mais espaço nas políticas públicas. Conheço o nosso cansaço: a sobrecarga, a pressão velada das redes sociais e as longas jornadas para garantir uma vida digna, equilibrando a rotina com a atualização contínua. Para muitas de nós, visto que a maior parcela de trabalhadores de Psicologia neste país é de mulheres, a luta começou ainda na graduação, dividindo estágios e trabalho com o cuidado da família. Mesmo assim, não podemos perder de vista que a Psicologia ganhou uma grande visibilidade nos últimos anos; nunca se falou tanto em saúde mental. A busca pela clínica aumentou e a mídia abriu espaço para nos ouvir. Este é o nosso momento de plantar as sementes certas para o solo que estamos cultivando. Quero ainda, expressar meu orgulho e satisfação em compor essa categoria no mesmo espaço-tempo que você. Você, Psi, que orienta sua prática pelos princípios do nosso Código de Ética; você que fez a diferença quando:
Que profissão diversa! Por isso, iniciei dizendo que este texto era para a sociedade. Afinal, além de fazermos parte dessa estrutura, exercemos uma profissão de imensa relevância social e com um potencial transformador. Por força do hábito, pensei em encerrar com um expressivo “parabéns”. Mas vou resistir. Prefiro encerrar agradecendo a você Psi, que tem atuado com ética, compromisso social e profundo respeito à dignidade humana.
Em nome de todas as pessoas que a sua prática já alcançou: muito obrigada!
* Anne Emanuelle Cipriano é psicóloga clínica, mestra em Psicologia, doutoranda em Psicologia Social do Trabalho e das Organizações (UnB) e Coordenadora da Comissão Especial de Psicologia Clínica do Conselho Regional de Psicologia do Distrito Federal (CRP 01∕DF).
** Esse texto contou com o apoio da Comissão Especial de Psicologia Clínica (Comclin) do CRP 01/DF.
#imagemacessível: card colorido que convida para leitura do texto na íntegra. Na imagem, aparece um destaque para a celebração do Dia da(o) Psicóloga(o) e convite para ler a crônica. Há ilustração de três figuras humanas segurando peças de um quebra-cabeças com o símbolo da Psicologia em diferentes cores. Entre as figuras, há também um símbolo da luta antirracista, da luta anticapacitista e um coração que remete à atuação na área da saúde. A imagem também conta com detalhe em estilo grafismo étnico e com um arco-íris, remetendo às diversas agendas da Psicologia, uma profissão essencialmente plural. Na parte superior, está a marca gráfica do CRP 01/DF.