
*Texto de Márcia Caldas (CRP 01/13055)
Importante iniciar essa reflexão, observando os três primeiros incisos dos Princípios Fundamentais do Código de Ética Profissional do Psicólogo, são eles:
I. O psicólogo baseará o seu trabalho no respeito e na promoção da liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano, apoiado nos valores que embasam a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
II. O psicólogo trabalhará visando promover a saúde e a qualidade de vida das pessoas e das coletividades e contribuirá para a eliminação de quaisquer formas de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.
III. O psicólogo atuará com responsabilidade social, analisando crítica e historicamente a realidade política, econômica, social e cultural.
O escutar pessoas que se encontram em situação de rua é também uma área de atuação dos psicólogos, podendo ser uma atividade terapêutica e um instrumento de cuidado, em liberdade e no território, possibilitando construções de vidas mais dignas, mais felizes e auxiliando a eliminação de formas de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão a que são submetidas.
O setting da atividade não possui cadeiras, portas ou paredes, porém acompanha o fluxo dos afetos das pessoas que se encontram na rua. O psicólogo participa de maneira visceral com seu corpo e afetos em um grande envolvimento.
O vínculo, em geral, é estabelecido lentamente com a repetição dos encontros. Existe uma desconfiança natural em relação às pessoas que chegam ao local por serem sujeitos até então estranhos e considerados invasores a aquele território.
O profissional necessita estar junto e acompanhar histórias vividas e contadas pelas pessoas que se encontram em situação de rua, sempre seguindo o fluxo e as regras da rua, assim como deve tentar sentir suas singularidades e pulsões de vida.
A escuta sensível e afetuosa que aparentemente é sem objetivo (inclusive sem objetivo terapêutico) por ser um setting mais livre de regras convencionais, passa a adquirir consistência e objetivos quando possui uma frequência constante e responsável do profissional. Podendo proporcionar às pessoas em situação de rua, o início de um processo de elaboração de conteúdos, que talvez seria mais difícil de realizar de maneira individual, e encontrar possíveis caminhos mais dignos de vida..
O Psicólogo deve ser um SER AMOROSO na essência de sua vida e da atividade, isso provavelmente facilitará a vinculação com as pessoas que se encontram em situação de rua. O afeto é revolucionário e cura a alma.
É importante que o profissional que participa da atividade da escuta na rua tente ser mais flexível com suas normas internas, a fim de facilitar a fluidez de relações mais livres e afetuosas.
Construções e vínculos de confiança vão se estabelecendo com as repetições dos encontros e a Pessoa em Situação de Rua poder começar a se sentir cuidada. Essa aproximação é sensível e forte, muitas vezes a pessoa passa a fazer parte de alguma maneira da vida do psicólogo.
Acredito que cabe ao psicólogo possibilitar a partir do cuidado, em liberdade e no território, que as pessoas possam se tornar mais fortalecidas para lutar pela garantia de seus direitos previstos na Constituição Federal, assim como em todas as normas que versem sobre o tema.
E viva a troca de afetos e a escuta como Instrumento de Cuidado!
*Márcia Caldas é idealizadora e voluntária do coletivo Café com Escuta, colaboradora da Comissão de Direitos Humanos, Saúde Mental e Políticas Sociais do CRP 01/DF e Assessora Técnica de Saúde Mental e População em Situação de Rua da Promotoria da Infância e Juventude/MPDFT.
#imagemacessível: imagem do encontro de celebração do Dia Nacional de Luta da População em Situação de Rua, promovido pelo projeto Café com Escuta, em parceria com o CRP 01/DF. Há pessoas proferindo palavras de ordem e se divertindo em espaço público no centro do Plano Piloto, em Brasília.